O mendigo que era todo seu...

 


O MENDIGO QUE ERA TODO SEU

A noite está gelada, não tão frio como em anos passados, mas o corpo velho já não é o mesmo, hoje sofre mais, sente mais

Um vento não sei vindo de onde entra pela malha dos fios, o corpo estremece, trepida sem comando algum, mas meus tremores não são meus, não, não são. 

Meus tremores são só de imaginar o velho andarilho deitado sob a marquise, dos meninos perdidos pelas ruas e amontoados em si, tremendo de fome e medo entre o gole da garrafa e a bucha de lolo. 

Meu Deus, por que tamanha desigualdade ? Aquele servil se hipnotiza diante da TV e se não pela religião doutrinária que lhe induz que ser assim é redimir-se, é exaltação. Que Deus mais cruel seria Este se assim quisesse dor, sofrimento, abandono e tristeza na solidão de noites mal dormidas, de angustias travestidas em alegres gritos do garrafão, da pinga que lhe fede o suor na pele seca e agora eriçada pelo frio.

Viajo agora sentado no banco do ônibus e comentei a pouco com os outros do tubo no terminal onde um enorme cão toma a mesma postura e lugar dos pedintes e compartilhei : disse a eles - É nesta hora que ele vai nos contar sua vida desventurada, de como perdeu tudo,casa, trabalho de guarda, um boa cama junto à churrasqueira que vez ou outra lhe sobravam verdadeiras iguarias, ossos e restos das crianças ao chão, de seu lindo quintal a correr atras de gatos e bolas infantis. - Juro que viajei na crônica narrada, e transmiti a eles tudo que imaginei que ele, cão, falaria para se justificar do por que estaria ali, jogado na sarjeta, no canto sujo da rua, contaria mais que uma breve triste história e ao perceber os olhos marejados, usaria de sua voz mais carismática e pediria as moedinhas.... Agora aqui, neste ônibus remoo a história a ele por mim criada e percebi qe na verdade eu falara como se fosse o mendigo que ali estava a dormir sob sua guarda, todo enrolado em velho sujo cobertor, ele, cão, ficou na ansiedade de entrar e vim embora para a nossa Passárgada talvez a explorar um novo mundo, mas ao chegar os pés à porta, olhou para trás, viu o velho mendigo encolhido, olhou com seus castanhos olhos a todos e deu a volta em si, foi para perto do corpo esmorecido em sono profundo e em poucas voltas num eixo só seu, aninhou-se entre as pernas, do mendigo que era todo seu....


#poethaabiliomachadooumestreabelino

#cronicadodia

#cronicadeumdiafrio

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