O FUZIL E O VIGIA - uma história da caserna.

 


O fuzil e o Vigia

O posto mais temido do batalhão, era a guarda de dias, longe do batalhão, apenas um grupo de jovens no meio do nada, a guarita  ficava no extremo do terreno, próximo a uma faixa de mata fechada que parecia engolir a luz da lua. 

Durante o dia, era apenas um canto esquecido, cercado por arbustos, pedras e o silêncio comum dos lugares afastados. Mas à noite, transformava-se em outra coisa.

Os soldados o chamavam de "o fim do mundo".

Foi para lá que o soldado 1146 foi escalado naquela madrugada.

Era jovem. Poucos meses de farda. Poucos meses longe da casa dos pais, falecidos no ano anterior, muito longe do seu estado. Poucos meses tentando parecer mais corajoso do que realmente era.

Pegou seu fuzil, verificou a escala outra vez e caminhou sozinho pela estrada de terra que levava ao posto. Cada passo parecia afastá-lo da segurança das luzes daquele setor de guarda e aproximá-lo de algo desconhecido.

Quando chegou, acomodou-se na pequena guarita, que ficava no alto daquela torre. Numa penumbra total.

O relógio marcava meia-noite.

Faltavam seis horas para o nascer do sol.

Seis horas pareciam uma eternidade. E delas ficaria três longas horas de vigia.

No início, tudo estava tranquilo. O vento movimentava as folhas. Alguns grilos cantavam ao longe. Um cachorro latiu em algum lugar distante.

Mas, aos poucos, sua mente começou a trabalhar.

E a imaginação é uma fábrica incansável quando encontra o silêncio.

Cada sombra parecia esconder alguém.

Cada estalo de galho parecia um passo.

Cada movimento entre as árvores parecia uma aproximação.

Ele segurava o fuzil com força.

Tentava lembrar dos treinamentos.

Tentava repetir mentalmente os protocolos.

Tentava convencer a si mesmo de que estava preparado.

Mas a verdade era que tinha medo.

Medo de uma invasão.

Medo de não perceber algum movimento.

Medo de agir quando não deveria.

Medo de não agir quando fosse necessário.

Medo de errar.

O tempo passava lentamente.

Uma hora.

Quase duas horas.

A madrugada parecia não terminar nunca.

O cansaço começou a aparecer.

As pálpebras pesavam.

A cabeça inclinava sem que ele percebesse.

E então surgia outro medo.

O medo de ser encontrado dormindo.

Entre os soldados, existiam histórias terríveis sobre vigias flagrados cochilando.

Advertências.

Punições.

Humilhações.

Transferências para os piores serviços.

E a pior: roubarem o fuzil só de sacanagem ou roubarem de verdade...

1146 saia da pequena janela de observação, caminhava alguns metros, lavava o rosto com água do cantil e voltava ao posto.

Mas o sono retornava.

E com ele, a culpa.

Aquela luta silenciosa tornou-se mais intensa que qualquer ameaça externa.

Já não combatia invasores imaginários.

Combatia a si mesmo.

Combatia o corpo cansado.

Combatia pensamentos pessimistas.

Combatia o desejo de desistir.

Por volta das duas da manhã, ouviu um ruído forte vindo da mata.

Seu coração disparou.

A respiração acelerou.

Empunhou a arma.

Os músculos ficaram rígidos.

Os segundos pareciam horas.

Outro barulho.

Mais próximo.

Mais intenso.

O guri sentiu o suor escorrer pela testa.

Ali estava.

Era aquilo que temera durante toda a noite.

O momento da verdade.

Fixou os olhos na escuridão.

Preparou-se.

Esperou.

E então surgiu uma pequena silhueta.

Das sombras da mata emergiu um lobo-guará.

Um lobo guará no cerrado de Brasília.

Alto, elegante e silencioso.

Caminhava sem pressa, como se fosse dono daquela madrugada.

E talvez fosse.

Nada mais.

Nenhum invasor.

Nenhum ataque.

Nenhum inimigo.

Apenas um animal em seu próprio território, observando homens que acreditavam vigiar a noite, dentro do seu território invadido.

O soldado soltou o ar que nem percebera estar prendendo.

E, pela primeira vez naquela noite, sorriu.

Disse a si mesmo que merecia fumar, acendeu o cigarro oferecendo um clarão que o cegou por breve nomento.

E naquele instante compreendeu algo importante.

A maior batalha daquela madrugada não havia acontecido na mata.

Havia acontecido dentro dele.

O invasor mais perigoso não era um homem escondido entre as árvores.

Era o medo escondido dentro de sua própria mente.

Quando o céu começou a clarear e os primeiros raios de sol tocaram o horizonte, o jovem soldado sentiu um alívio profundo.

Não porque a noite tivesse sido fácil.

Mas porque a atravessara.

Deitou o fuzil ao final do serviço ao seu lado na cama  no alojamento. Chegou a comentar com os outros do lobo guará que viu, uns duvidaram e outros fizeram comentários.

Continuava sendo o mesmo jovem.

Continuava inexperiente.

Continuava aprendendo.

Mas carregava algo novo.

A certeza de que coragem não é ausência de medo.

Coragem é permanecer no posto mesmo quando o medo faz companhia durante toda a madrugada.

E há batalhas que ninguém vê, não rendem medalhas nem aparecem nos relatórios.

São travadas em silêncio, entre a escuridão da noite e a luz do amanhecer.

Mas são justamente essas que transformam um rapaz comum em um homem capaz de confiar em si mesmo.


Abilio Machado

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