O mendigo que era todo seu...
O MENDIGO QUE ERA TODO SEU A noite está gelada, não tão frio como em anos passados, mas o corpo velho já não é o mesmo, hoje sofre mais, sente mais Um vento não sei vindo de onde entra pela malha dos fios, o corpo estremece, trepida sem comando algum, mas meus tremores não são meus, não, não são. Meus tremores são só de imaginar o velho andarilho deitado sob a marquise, dos meninos perdidos pelas ruas e amontoados em si, tremendo de fome e medo entre o gole da garrafa e a bucha de lolo. Meu Deus, por que tamanha desigualdade ? Aquele servil se hipnotiza diante da TV e se não pela religião doutrinária que lhe induz que ser assim é redimir-se, é exaltação. Que Deus mais cruel seria Este se assim quisesse dor, sofrimento, abandono e tristeza na solidão de noites mal dormidas, de angustias travestidas em alegres gritos do garrafão, da pinga que lhe fede o suor na pele seca e agora eriçada pelo frio. Viajo agora sentado no banco do ônibus e comentei a pouco com os outros d...