Na minha época...
Na minha época...
Por Abilio Machado
Tenho 60 anos. Sessenta. Não são mais 55, nem 50 — já atravessei oficialmente a fronteira onde muita gente da minha geração acredita que “cabelo branco” deveria vir com crachá vitalício de respeito e autoridade. Pois é… preciso te contar: não vem.
O que vejo, na prática, é uma legião de profissionais que, em vez de estudar, se reciclar ou simplesmente admitir que o mundo mudou, preferem se esconder atrás da relíquia de museu chamada frase: “na minha época...”. Como se nostalgia fosse competência, como se lembrar de quando telefone tinha fio resolvesse os problemas de hoje. (E olha que ter telefone custava os olhos da cara e exigia fila de espera).
Muitos acabam virando freio de mão puxado. Não inovam, não lideram, não arriscam. Armam barricadas contra qualquer mudança, sempre munidos de discursos emocionais que parecem saídos de novela mexicana. O resultado? Previsível: deixam de ser inspiração e viram estorvo.
E o argumento da “experiência”? Funciona até certo ponto. Porque se experiência se resume a reclamar da juventude e repetir métodos que já estavam velhos na era da internet discada (sim, aquela que fazia barulho e levava horas para baixar uma única foto), então estamos falando de museologia, não de sabedoria prática. Se tudo o que você tem a oferecer é “quando eu tinha a sua idade…”, parabéns: acabou de assinar sua própria certidão de irrelevância.
Claro, não dá para negar: há preconceito etário, sim. Mas muita gente com mais de 50 sofre, na verdade, do conforto da preguiça mental. Viram burocratas de si mesmos, repetindo fórmulas gastas e esperando que os jovens “os ouçam”. Ouvir o quê? Reclamando e se autoelogiando? É preciso um reajuste mútuo: jovens e veteranos precisam se escutar — de verdade — se quiserem construir algo juntos.
Envelhecer com relevância é possível. Mas exige coragem para largar o pedestal, humildade para aprender com quem tem metade da sua idade e ousadia para arriscar de novo. Difícil? Sim. Mas necessário. Porque os jovens ainda têm tempo para recomeçar, e nós… bem, nós já não podemos desperdiçar tanto.
Quem insiste em repetir o bordão “na minha época” precisa entender uma coisa simples: sua época não acabou se você avança. Mas se parar no tempo, aí sim, acabou — e ninguém tem obrigação de arrastar peso só porque ele vem com barba branca. Assim como nós, barbas brancas, também não temos a obrigação de entregar o caminho pronto, como se não tivéssemos lutado por cada pedaço dele.
E eu falo isso de dentro da categoria. Tenho barba branca, sim. A diferença é que aprendi que não dá para viver de saudade de um passado que ninguém, além de você, sente falta.
Porém… ah, os poréns… Veremos você, jovem, quando atravessar a fronteira dos sessenta. A vida tem uma ironia deliciosa: o tempo cobra de todos.

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