Diário- 30 de maio, noite fria cheia de lembranças.



Memória boa demais, quando volta, vem com uma força que o coração às vezes não dá conta de segurar tudo de uma vez.

E minha crônica é um diário, espero que goste desta série... Data Estelar Memórias de Um Eu....


Diário – 30 de maio, noite fria

Hoje o frio bateu daquele jeito que só quem é do Sul entende — cortante, úmido, se enfiando pelas frestas da alma, doendo as juntas dos ossos, o motorista do aplicativo de madrugada falou que veio de Manaus, primeiro frio no sul, havia ligado o aquecimento no último que ardia meus olhos. O dia de hospital foi longo, consulta com Yuri pela manhã no Sam25 e com Dr Gabriel no Sam08 a tarde. Conversei com Wilson, morador de rua, que puxou conversa me chamando de Karl Marx, parei para falarmos sobre e diacorremos por mais de uma hira sobre ele, a namorada que encontrou na rua, sua vida ruído de professor de capoeira (Zangão) ao momento atual. Falamos sobre o comunismo socialista, sobre zumbi, quilombolas, história da capoeira relembrando mestre Pastinha e outros da época da capoeira proibida, relembrei de quando joguei capoeira(Bexiga). Conversei com pessoas nas salas de espera, na central de agendamento onde achei um lugar xingo para carregar o celular, mais tarde nas mesinhas em frente ao hospital enquanto esperei muito pelo retorno da van e seu condutor, o Osório.

 Já fim da tarde dentro da van da saúde,  retornando a Campo Largo City,  conheci Ângelo Secci, 74 anos, acompanhava sua esposa a consulta, e que atualmente por aqui. Em nossa conversa, lembramos do pinhão assado na brasa do sapé... E quantas imagens, surgiram...

Me veio na memória aquele tempo de guri, quando o inverno tinha cheiro de sapé queimando e som de pinhão estourando na brasa.

Era sempre essa época… mãe preparando a trempe, pai cuidando da lenha, e eu ali no meio, com minhas irmãs, com o olhar grudado no fogo e o coração quente de tanto amor ao redor.

Tinha um silêncio diferente naquela época. Não o silêncio da solidão — esse que anda me fazendo companhia hoje em dia —, mas o silêncio bom, de escutar. De ouvir a história que pai contava, cheio de pausa, como quem plantava palavra por palavra no tempo. Mãe às vezes emendava com causos da família, e tudo virava magia, muitas vezes fazia orelha de padre ou polenta assada, mas o pinhão... Era marco de época.

Era tudo tão simples, mas tão inteiro. A gente nem sabia que tava vivendo o que um dia ia doer de lembrar.

Hoje em dia, tentei assar pinhão no forno — não é a mesma coisa. Fica pronto, fica quente… mas não tem alma. Não tem aquele cheiro do sapé, aquele som da lenha estalando devagarzinho, como se o tempo também tivesse mais calma.

Senti uma falta danada deles hoje. De ouvir suas vozes, do jeito de rir, do cuidado até na hora de descascar um pinhão quente demais. E doeu pensar que eu não tenho mais pra quem contar essas noites, que essa roda em volta do fogo agora só existe na lembrança.

Acho que a saudade tem dessas: chega com o frio, senta no sofá e fica ali, sem dizer nada, só fazendo a gente lembrar do que já foi. E a lembrança, quando é boa demais, dói feito espinho de araucária.

Mas também aquece. Porque mesmo que eles não estejam mais aqui do meu lado, ainda vivem nessas memórias que me pegam de surpresa. E é nessas horas que eu entendo: infância não é lugar que a gente passa — é lugar onde a gente mora por dentro.

Se amanhã esfriar de novo, talvez eu asse mais um pouco de pinhão. Só pra fingir que ainda tô lá, sentado no banco de madeira ao lado do fogão a lenha  feito de barro e de acabamento de vermelhão, ouvindo história, com a mão suja de casca e o coração limpo de toda saudade... Pareço ouvir as vozes de meus velhos pais, meu Deus... Vou ali secar meus olhos, até mais.

Boa noite, diário.



Vou transformar minhas vivências em uma pequena coletânea de memórias como se fosse um diário contínuo. Espero que gostem e também contem as suas...


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