Nunca brigue com um porco



Nunca Brigue com um Porco Vocês dois vão se sujar, mas o porco vai gostar. 


Por Abilio Machado 


Disseram que o mundo mudou. Mas não mudaram as velhas estratégias: ergue-se um porco no chiqueiro das ideias e o desafiam para o ringue. O truque é simples — provoque, grite, acuse, rotule. Faça espuma com slogans, jogue fezes com palavras. Quem tentar responder, sai sujo. E o povo, claro, aplaude. Nada como um pouco de lama no horário nobre.


“Não brigue com um porco. Vocês dois vão se sujar, mas o povo vai gostar.”

É mais do que metáfora. É método.


O palco de hoje é digital. Ali se encenam as guerras morais, os linchamentos de reputação, os delírios coletivos da pureza ideológica. O novo tribunal tem avatares. O velho autoritarismo se fantasia de justiça social.


A ideologia woke, que nasceu com promessas de consciência, acordou agressiva e sem senso de ironia. A cada dia ela nos oferece um novo culpado para queimar. Seu método não é ensinar — é expor, cancelar, reduzir o outro a um erro. Nessa feira de vaidades morais, quem grita mais alto é rei. Não há espaço para dúvida, nuance ou conversa. Só trincheira.


Do outro lado, velhas utopias pintam cartazes com tinta vermelha e promessas repetidas: igualdade forçada, propriedade do Estado, liberdade sob vigilância. O socialismo e o comunismo, sempre com um cadáver embaixo da mesa e um livro de Marx sobre ela, continuam atraindo almas românticas — e preguiçosas. A culpa é sempre do sistema, nunca do sujeito. Sonham com revolução, mas não lavam nem a louça.


E aí você, que ainda acredita no diálogo, que tenta pensar antes de postar, que vê complexidade onde outros veem inimigos, entra na arena. Vai tentar argumentar. Vai tentar mostrar o absurdo de tudo isso.


Mas lembre-se: você está brigando com um porco.


E ele não está interessado na verdade — só no espetáculo.


Ele quer a lama. E o povo, cansado, com fome de sentido e raiva no coração, adora ver alguém se sujar tentando parecer limpo.


A saída?

Talvez seja não entrar. Não se abaixar. Não responder toda provocação. Há batalhas que se vencem com silêncio, e guerras que só se ganham ao não lutar no campo que escolheram pra te derrotar.


Ou, quem sabe, o segredo seja construir outro espaço. Fora do chiqueiro.

Onde ainda se pode errar, pensar, discordar — sem sair coberto de lama.




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