Já se passaram algumas horas que nos vimos...




 Já se passaram algumas horas que nos vimos...

Por Abilio Machado 

Eu sabia que o tempo ia enganar. Ele sempre faz isso. Anda com um passo falso, tropeçando entre os minutos e as lembranças. Mas dessa vez, ele foi longe demais. Me olhei no espelho e vi, no fundo dos olhos, aquele reflexo estranho: um pedaço de você que ainda ficou por aqui, mesmo quando já se passaram algumas horas que nos vimos.


Não sei o que acontece quando você chega. O ar muda. A sala, antes tão cheia de silêncios, se enche de presenças que só nós entendemos. E o relógio... ah, o relógio! Ele nem se atreve a bater direito. Talvez saiba que ali, naquele instante, ele não manda mais.


Mas agora estou aqui, de volta ao mundo dos ponteiros e das obrigações. As horas passaram. Eu sei disso porque o sol mudou de lugar e as sombras também. Só que dentro de mim, o tempo não passou. Ficou congelado naquele momento em que seus olhos disseram algo que as palavras não ousaram.


Fecho os olhos e tento entender o que foi aquilo. Um encanto? Uma brincadeira do destino? Ou, quem sabe, uma espécie de revelação mística que só acontece quando duas almas se encontram no tempo certo, mesmo que esse tempo dure apenas o suficiente para o café esfriar.


Há quem diga que somos todos viajantes do tempo, presos em um ciclo infinito de memórias e sensações. Talvez seja isso. Talvez você seja meu portal para outro lugar, onde as horas são mais leves e o coração bate em compassos menos apressados.


Já se passaram algumas horas que nos vimos, mas a verdade é que ainda estou lá. Ainda estamos lá. Em algum canto do universo, congelados naquele segundo perfeito.


E sabe o que é mais louco? Não tenho pressa de voltar.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Diário- 30 de maio, noite fria cheia de lembranças.

Nunca brigue com um porco

AMIGO DE INFÂNCIA: A TESTEMUNHA DO CRIME!