Querido diário estelar hoje é 23 de maio
Querido diário estelar,
essa noite eu tive um pesadelo.
Sonhei que acordava em uma manhã qualquer, e já ansioso pra resolver as coisas do trabalho, da casa, dos estudos, minhas consultas, meus e-books... Parecia um despertar normal dos meus dias. Mas tudo estava absurdamente silencioso e calmo. Levantei e caminhei pelos cômodos da casa, o xixi com a cueca abaixo da linha escrotal, as janelas uma a uma as abri e de fora uma luz forte emanava. Caminhei descalço por um chão limpo e morno, olhei para os pés, ainda estava de meias brancas. Sentia uma enorme paz. Eu sei, até aqui não parece um pesadelo.
Então ouvi uma voz calma👇
sobre o meu ombro dizendo "vamos" e eu me virei, mas não vi ninguém. Senti alguém pegar na minha mão e me puxar em direção a porta de entrada, mas não era ninguém. Mas ao ver a porta aberta, eu entendi: era um "adeus". Eu nunca mais voltaria ali. E foi aí que tudo escureceu. Um escuro desolador.
Vi uma pequena luz surgir de longe, me aproximei e percebi que era a minha antiga oficina de joias e relógios, que ficava no centro, ali onde é a Casa China, de repente era onde tudo começou e noutro era o cantinho, na garagem do seu João, onde eu fazia anéis de letra em prata oi latão. A janela de novo. A luz vinha desta janela. Nas noites eu costumava ir à máquina de escrever, com cabeça de café, cigarro no conteúdos, deixava uma única luz acessa pra "quando eu terminasse tudo que tinha pra fazer" ir até lá e começar as milhares de artes, textos e ideias que eu tinha em mente, quantas e quantas poesias, ideias, desenhos de joias e textos de teatro. Mas dava madrugada e eu ainda estava ocupado, então caminhava no escuro nú pelo jardim, abria a porta olhava aquele meu cantinho e dizia:
"amanhã, amanhã eu venho pra cá". Se passaram dias, meses, anos... eu nunca arrumei tempo.
Minha respiração ficou ofegante. Eu chorei e 👇
Implorei ao vazio que me puxava "por favor, não me leva. Os meus cadernos, minhas tintas, as minhas telas, os papeis, meu desenho e as coisas que eu comprei, eu não usei nada. Por favor, eu preciso de mais um tempo". Mas a força puxava cada vez mais forte e mais distante a janela ficava.
Seguia implorando... "Eu não mereço isso. Os meus planos e sonhos, os meus objetivos, eu tenho tanta vida, por favor não tire isso de mim. Eu tenho coisas importantes pra fazer".
E foi aí que parei de ser puxado👇
A força segurou minhas duas mãos, a voz vinha de frente, e tentava me acalmar "está tudo acertado e organizado, não tem nenhuma pendência na sua jornada na terra e você conseguiu, adiantou várias coisas, vai ficar tudo bem sem você aqui, lembre-se você fez o seu melhor dentro do seu possível".
- Mas e os meus planos e sonhos ?
Então essa presença me abraçou e disse sussurrando ao meu ouvido "não foram neles que você colocou todo o seu tempo e energia de vida, eu sinto muito se você não percebeu que um dia não amanheceria outra vez pra você jogar seus planos novamente para um amanhã".👇
Respirei fundo. Me permiti abraçar de volta... Senti meu corpo balançar numa náusea e num milésimo me vi caído logo chão frio, o corpo amortecido e dolorido, mais uma queda sem sentir nada. Um apagão, seria uma fuga de mim mesmo?! Um eu não?!
Foi aí que a luz voltou. E a presença era eu mesmo que me abraçava, mais jovem, mais disposto, mais alegre.
Lembrei que quando eu tinha 12, 13, 14 anos, tudo que eu queria era "espaço" pra explorar todas as minhas ideias. Uma primeira vez era ser aviador, Em outras era ser igual a meu pai: forte, firme, resoluto, trabalhador e dono de uma vontade e caráter moral e político sem igual. Mais tarde me manter no quartel, continuar no front, como amei aquele período de vida... sonhei com uma joalheria ou um ateliê de confecção de roupas, ou um escritório de desenhos de móveis e plantas de casas... Eu me dizia que não teria uma vida tediosa e óbvia. Mas eu me nem mesmo formei, tranquei e casei, nunca comprei um carro, ainda devo minha casa, já infartei, já fiz tantas cirurgias cardíacas e agora chega o transplante cardíaco depois de uma luta de 10 anos num câncer...👇
Ah, fiz as coisas mais óbvias possíveis. Inclusive a de achar que tenho obrigações maiores com o trabalho, com os outros, a casa, os estudos e os ex casamentos, tudo antes do que comigo.
Sempre preso que aprovações e admiração externas me seriam suficientes. Eu segui o roteiro programado que foi surgindo, dia a dia.
E a certeza que eu tinha na adolescência foi confirmada:
Uma vida inteira sendo apenas uma "bom adulto", é tudo muito assustador e decepcionante.
Mas por que a seguimos?
Acordei do pesadelo. Chorei. Levantei. Mas vivi meu dia habitual, uma consulta demorada no hospital, uma tarde de supermercado escolhendo o pouco que podia abrir mão do meu pouco quinhão. Uma visita de minhas filhas mais velhas, decisões a tomar, saudades de minha caçula, já faz bom tempo ué não temos tempo de jos vermos, nem mesmo responde as mensagens que envio, não atende minhas ligações.
Por que ainda não entendi? O que ainda não entendi?
E você, entendeu?
Agora estou escrevendo esta crônica neste diário estelar, sentado na beirada da cama, um filme na TV em pausa desde que comecei a escrever este texto... As dores me
Acordaram as 3 h, desta madrugada de uma friarca suave, de um 23 de maio e a mente correndo solta mesmo depois da oração...
Oração por amigos e familiares que enviaram seus pedidos dedicatórias na oração, destas uma me chamou atenção: ora por sua saúde e por minha família.
As dores ainda persistem mesmo depois d medicação, devia ter dormido mais um pouco, daqui a pouco tenho outra consulta no HC...
Muitas coisas a fazer...
Outras para tentar esquecer, mas não abandonar.
O que ainda não entendi...
E você, entendeu ?
Paz profunda ✌ 🙏 🙌 🎅

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